O etanol brasileiro começa a ganhar uma nova função na transição energética: deixar de ser visto apenas como combustível automotivo e passar a ocupar espaço em máquinas agrícolas, transporte marítimo, ferrovias e geração elétrica.
Enquanto boa parte da transição energética global ainda depende de tecnologias importadas, cadeias novas e infraestrutura em construção, o Brasil já tem uma vantagem instalada: o etanol. A questão agora é entender até onde esse biocombustível pode ir além do uso automotivo.
Nos últimos anos, diferentes setores começaram a testar essa resposta na prática. Máquinas agrícolas, transporte marítimo, locomotivas e geração elétrica passaram a considerar o etanol como alternativa real para reduzir emissões e diminuir a dependência do diesel. Projetos como a termoelétrica a etanol em Suape, os testes no setor ferroviário e as soluções desenvolvidas pela Liconic mostram como essa cadeia pode se transformar em uma plataforma nacional para energia limpa, despachável e estratégica.
O potencial do etanol como fonte de energia renovável
Hoje é claro a necessidade de descarbonizar, isso deixou de ser apenas uma discussão questionável para um fato urgente. Empresas, governos e cadeias industriais estão sendo pressionados a reduzir emissões, cumprir metas climáticas e buscar alternativas mais seguras para substituir os combustíveis fósseis.
Nesse cenário, o Brasil tem uma posição interessante. Enquanto muitos países ainda precisam construir novas cadeias de energia do zero, o Brasil já possui uma estrutura madura de bioenergia. A produção de etanol, a distribuição nacional, os centros de pesquisa, as usinas e a experiência acumulada com motores flex formam uma base que poucos países conseguem replicar rapidamente.
Segundo dados da ANP, o Brasil comercializou mais de 133 bilhões de litros de combustíveis líquidos automotivos em 2024 e encerrou o ano com mais de 44 mil postos de combustíveis. Em um país continental, isso mostra a dimensão da infraestrutura nacional de abastecimento. Quando falamos em etanol, portanto, não estamos falando apenas de uma promessa de laboratório, mas de uma cadeia que já existe, já opera e já chega ao consumidor final.

Outro ponto importante é a sustentabilidade. Um estudo da Embrapa mostrou que o etanol de cana pode reduzir significativamente as emissões de CO₂ em comparação com a gasolina, considerando o ciclo de produção e uso do combustível. Esse tipo de análise é importante porque coloca a discussão em uma base mais técnica: não basta dizer que um combustível é renovável; é preciso medir sua pegada de carbono.

É justamente nessa lógica que entram programas como o RenovaBio, a RenovaCalc e os CBIOs. Eles ajudam a transformar a redução de emissões dos biocombustíveis em um sistema mensurável, certificado e negociável. Isso cria uma base mais sólida para o etanol ser usado não só no transporte, mas também em novas aplicações industriais e energéticas.
Etanol como cadeia estratégica brasileira
Um dos maiores diferenciais do etanol é que ele não depende apenas do combustível em si. Ele envolve uma cadeia completa: plantio, colheita, beneficiamento, usinas, logística, distribuição, pesquisa, engenharia e aplicação final. Essa cadeia gera conhecimento, empregos, tecnologia e capacidade produtiva dentro do Brasil.
Esse é o ponto central da soberania energética. O Brasil controla boa parte da produção, da logística, da tecnologia e da distribuição do etanol. Em um mundo cada vez mais instável, com conflitos afetando rotas de petróleo e combustíveis fósseis, ter uma alternativa energética nacional se torna uma vantagem econômica e estratégica.

Também existe um ponto técnico importante: o etanol é armazenável e transportável. Diferente de fontes renováveis intermitentes, como solar e eólica, ele pode ser estocado e utilizado quando necessário. Isso não significa substituir essas fontes, mas complementar o sistema em momentos em que há demanda por energia despachável.
Essa característica abre espaço para aplicações em backup de energia, geração distribuída, suporte a processos industriais críticos e sistemas híbridos. Em vez de olhar para o etanol apenas como combustível automotivo, o Brasil pode tratá-lo como uma plataforma energética.
Novas tecnologias buscando sustentabilidade por meio do etanol
O avanço do etanol começa a aparecer em setores onde o diesel sempre foi dominante. No agronegócio, por exemplo, máquinas agrícolas movidas a biocombustíveis ganharam destaque recente. A AGCO Power vem desenvolvendo tecnologia para motores a etanol, enquanto outras empresas também demonstraram tratores e soluções baseadas em biocombustíveis na Agrishow.

Esse movimento é importante porque ataca um ponto sensível da própria cadeia do etanol. Parte da pegada de carbono do combustível vem justamente do uso de diesel na colheita, no transporte e em outras etapas produtivas. Se a colheita passa a usar etanol e o transporte passa a usar biometano ou outros combustíveis renováveis, a cadeia pode reduzir ainda mais sua emissão total.
No setor marítimo, a discussão também começou a avançar. A Maersk, uma das maiores empresas de transporte marítimo do mundo, vem testando o uso de etanol em motores navais. Esse é um mercado extremamente relevante porque o transporte marítimo ainda depende muito de combustíveis pesados e possui grande pressão para reduzir emissões.

A importância desse movimento não está apenas no navio em si, mas no sinal de mercado. Se grandes operadores globais começam a testar etanol como combustível marítimo, o Brasil passa a ter uma oportunidade muito maior do que apenas exportar biocombustível. Pode participar da cadeia de desenvolvimento, fornecimento e aplicação de uma nova rota energética internacional.
No setor ferroviário, a Vale e a Wabtec também anunciaram um acordo para testar o uso de etanol em locomotivas. A proposta envolve estudos de um motor dual fuel, capaz de operar com diesel e mistura de diesel com etanol. Ainda é uma etapa de validação, mas mostra que a discussão saiu do automotivo e começou a chegar em máquinas de grande porte.
Para a Liconic, esse ponto é especialmente relevante. A empresa já desenvolve uma APU a etanol para locomotivas diesel-elétricas, com foco em fornecer energia auxiliar quando o motor principal não precisa estar em tração. A aplicação é diferente de um motor principal a etanol, mas parte da mesma tese: reduzir consumo improdutivo de diesel e criar uma alternativa baseada em biocombustível nacional.

(APU a Etanol para Locomotivas – Desenvolvimento Liconic Technology)
O projeto de Suape e a geração elétrica com etanol
Na geração elétrica, o caso mais simbólico é o projeto em Suape, em Pernambuco. A Suape Energia, em parceria com a Wärtsilä, iniciou a validação de um motor de grande porte adaptado para operar majoritariamente com etanol em geração termelétrica.
O equipamento utiliza um motor Wärtsilä 32M e tem capacidade aproximada de 4 MW. Dentro de uma usina com capacidade instalada muito maior, esse motor representa uma fração pequena da planta, mas com grande importância tecnológica. O objetivo é gerar dados reais de desempenho, consumo, emissões, confiabilidade e viabilidade econômica.

Esse ponto precisa ser bem entendido: o projeto ainda é uma validação. A Wärtsilä prevê milhares de horas de testes em operação real. É assim que novas tecnologias avançam em setores de alta complexidade. Não basta funcionar em bancada ou em condição controlada; é preciso operar por muito tempo, medir desgaste, estabilidade, manutenção e custo real.
Também vale lembrar que tecnologias dual fuel e motores adaptados para diferentes combustíveis não são uma novidade absoluta na engenharia. A própria Wärtsilä já desenvolve soluções desse tipo há décadas. O que muda agora é a aplicação do etanol brasileiro em um projeto de geração elétrica de grande porte, dentro de uma tese de descarbonização e segurança energética.
Para o Brasil, isso é estratégico. Se o etanol puder ser usado como fonte despachável de geração elétrica, ele pode complementar fontes renováveis intermitentes e ajudar em aplicações onde banco de baterias fica caro, limitado ou pouco adequado. É exatamente nessa brecha que o etanol pode ganhar espaço: energia disponível quando a rede, o processo ou a operação precisam.
Onde entra o Ecogerador a Etanol da Liconic
O Ecogerador a Etanol da Liconic atua em outra escala, mas dentro da mesma lógica. A proposta é utilizar o etanol como combustível para backup de energia sustentável, com foco em aplicações distribuídas, cargas críticas e operação sob demanda.

A tecnologia da Liconic não compete com um motor de 4 MW como o da Wärtsilä. O papel do Ecogerador é outro: oferecer uma solução de energia de emergência, sem fumaça, econômica e baseada em uma cadeia nacional. É uma aplicação menor, mais próxima do consumidor final e com grande potencial em condomínios, empresas, sistemas críticos e operações especiais.
O desenvolvimento do Ecogerador também mostra um ponto importante sobre tecnologia: validação leva tempo. A Liconic trabalha há anos no desenvolvimento da solução e vem validando a operação em campo para entender confiabilidade, manutenção, integração elétrica, comportamento do motor, consumo e resposta em situações reais.

Esse é o mesmo raciocínio que aparece no projeto de Suape e nos testes ferroviários. Tecnologias novas precisam de pesquisa, campo, dados e melhoria contínua. No caso do etanol, isso é ainda mais relevante porque o Brasil tem a chance de transformar uma cadeia já existente em novos produtos de energia.
Além do Ecogerador, a APU a etanol para locomotivas reforça a atuação da Liconic em aplicações de maior complexidade. O setor ferroviário exige cuidado com segurança, abastecimento, integração, normas e confiabilidade. Mesmo assim, é justamente nesses ambientes que a inovação pode gerar maior impacto, reduzindo consumo de diesel em operações onde o motor principal fica ligado apenas para alimentar sistemas auxiliares.
Uma oportunidade para o Brasil desenvolver tecnologia própria
O ponto principal dessa discussão é que o Brasil tem uma estratégia de descarbonização nas mãos. O país possui produção de etanol, cadeia logística, pesquisadores, usinas, empresas, experiência automotiva e agora começa a ver novas aplicações industriais surgirem.

Isso pode gerar benefícios em várias frentes: redução de emissões, menor dependência de combustíveis fósseis, desenvolvimento de tecnologia nacional, geração de empregos qualificados e criação de novos mercados para o etanol brasileiro.
Mas essa oportunidade não acontece sozinha. Projetos como Suape, os testes ferroviários, as máquinas agrícolas a biocombustíveis e o Ecogerador a Etanol precisam de validação técnica, incentivo, regulação, investimento e visão de longo prazo. A transição energética não depende apenas de escolher um combustível melhor; depende de transformar esse combustível em solução confiável, escalável e economicamente viável.

O etanol brasileiro já provou sua importância no setor automotivo. Agora, a nova fronteira é provar sua relevância em aplicações industriais, ferroviárias, marítimas e elétricas. Para a Liconic, esse caminho faz todo sentido: usar uma cadeia brasileira consolidada para criar soluções de energia mais limpas, mais seguras e mais estratégicas.
Por João ‘Jovis’ Arruda – Diretor Liconic Technology






















