Biocombustíveis e a estratégia global de energia verde

Biocombustíveis na estratégia global de energia verde, com etanol, energia solar, eólica e produção agrícola sustentável.

A crescente de consumo de eletricidade, motivado principalmente pelos mega datacenters de inteligência artificial, está pressionando as redes elétricas, voltando a segurança energética para o centro das preocupações dos governos. Ao mesmo tempo, a produção global de biocombustíveis tende a crescer cerca de 70% até 2030. Seria esse um caminho para garantir a energia de emergência de forma sustentável?

Durante anos, a discussão sobre transição energética esteve focada em apenas ‘’como produzir eletricidade de maneira mais sustentável’’. O cenário atual condiz com as seguintes possibilidades: Indústrias com painéis solares; propriedade com bancos de baterias; empresa contratando energia renovável; data centers conectados a uma matriz mais limpa. 

Essa evolução mudou a matriz energética de diversos países. Contudo, no momento surge uma segunda camada de preocupação, igualmente importante: O que acontece quando essa energia não está disponível?

Mas nenhuma dessas estruturas elimina a necessidade da continuidade de fornecimento. Essa nova fase vai exigir soluções além da questão de custo ou sustentabilidade, será necessário pensar na resiliência do fornecimento de energias verdes.

Indústria 4.0, eletrificação de transportes, climatização e novos serviços digitais estão aumentando rapidamente o consumo mundial. Entre os fatores mais visíveis está a expansão dos data centers e da inteligência artificial. A Agência Internacional de Energia chama esse cenário de uma nova “Era da Eletricidade”. [1]

Em 2025, os data centers consumiram aproximadamente 485 TWh de eletricidade no mundo. A projeção atual da IEA aponta para aproximadamente 950 TWh em 2030,  praticamente o dobro em apenas cinco anos, com previsão de triplicar por conta do consumo associado especificamente a data centers voltados à inteligência. [1]

image - Liconic Technology - Energia Verde com Etanol - outubro 5, 2026

Em todo o mundo, os data centers devem responder por parcela significativa do crescimento da demanda elétrica, e a IEA já identifica gargalos relacionados à conexão às redes, transformadores, equipamentos de geração e infraestrutura elétrica. Isso não significa que estamos “ficando sem energia”, o fator complicante é a entrega dessa energia onde e quando ela é necessária.

Ou seja, produzir energia de forma renovável é apenas uma parte do problema, garantir a entrega dela de forma confiável é outra. Energia solar e armazenamento em baterias são soluções elementares nessa solução, contudo são necessárias diferentes tecnologias para resolver diferentes problemas.

Uma bateria é excelente para armazenar eletricidade e responder rapidamente a interrupções. Entretanto, sua autonomia depende de quanta energia pode ser armazenada, e isso tem um custo, que é exponencialmente mais caro para resolver interrupções de longa duração.

É o que mostram os estudos do National Renewable Energy Laboratory. Sistemas de armazenamento dimensionados para poucas horas funcionam particularmente bem para interrupções curtas. À medida que uma interrupção se prolonga por dezenas de horas ou dias, aumenta significativamente a quantidade de armazenamento necessária. O próprio NREL observa que, em diversas aplicações, interrupções longas podem ser economicamente melhor atendidas por sistemas de geração complementar. [2]

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Outro fator evidente: geração solar depende da disponibilidade do recurso solar. Durante uma emergência prolongada, vários dias de baixa geração podem reduzir a capacidade de recompor completamente um banco de baterias.

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Por isso, a arquitetura mais confiável e resiliente não pode depender apenas de solar e baterias, elas precisam estar apoiadas por backup de energia sustentável para momentos de emergência.

A própria IEA destaca que ‘’baterias de UPS e geradores de emergência são utilizados para manter data centers funcionando durante interrupções’’, visto que níveis extremamente elevados de disponibilidade exigem redundância energética. Por isso é importante observar, quando discutida a transição energética de forma segura: continuará existindo uma demanda por uma fonte energética que possa ficar parada durante grande parte do tempo e entrar em funcionamento quando realmente for necessária. 

Historicamente, essa função foi cumprida principalmente por combustíveis fósseis. Contudo, a pergunta para os próximos anos será: Como tornar também a energia de emergência mais sustentável?

A reportagem publicada pela da Globo Rural sobre o crescimento dos biocombustíveis repercute um estudo publicado em setembro de 2026 pelo Chatham House, em parceria com o Forest Stewardship Council. [3] [4]

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O estudo analisa a reação de diversos países às recentes tensões no fornecimento global de petróleo e projeta que, considerando novas políticas e metas anunciadas, a produção mundial de biocombustíveis poderá passar de aproximadamente 105 milhões de toneladas equivalentes de petróleo em 2025 para 176 milhões em 2030. Isso representa um crescimento de 68% em apenas cinco anos. [4]

Esse não é um movimento concentrado a apenas um único país. Brasil, Estados Unidos, China, Índia, Indonésia e União Europeia estão entre as grandes economias que propuseram ou avançaram políticas de maior utilização de biocombustíveis.  

Há, portanto, uma transformação importante acontecendo, onde os combustíveis renováveis deixam de ser apenas uma pauta climática para se tornarem uma importante estratégia de segurança energética.

Um dos pontos chaves dessa discussão dos biocombustíveis. Quando um país desenvolve capacidade de produzir energia a partir de recursos disponíveis dentro de seu próprio território, reduz parte de sua exposição a determinados choques internacionais de fornecimento. 

Esse é um dos motivos pelos quais os biocombustíveis voltaram a ganhar importância na visão geopolítica mundial. Contudo, isso significa que nem todo biocombustível é automaticamente sustentável. A expansão do setor precisa ter sua evolução com rígido controle de certificação. No geral, o movimento estrutural é claro, grandes economias estão procurando alternativas adicionais aos combustíveis fósseis tradicionais.

E onde entra o etanol Brasileiro?

O etanol possui uma característica particularmente interessante dentro dessa transformação: já existe como combustível produzido industrialmente em grande escala em importantes mercados. Estados Unidos e Brasil estão entre os principais produtores mundiais de biocombustíveis, enquanto Europa, Indonésia e Índia também possuem mercados relevantes. 

Isso diferencia o bioetanol de algumas tecnologias energéticas que ainda dependem da criação de praticamente toda a cadeia produtiva e de distribuição. Por isso o etanol parte de um estágio de maturidade muito mais avançado, principalmente no Brasil, onde essa diferença é ainda maior.

Grande parte do etanol produzido mundialmente ainda está relacionada ao transporte. Contudo, o combustível é, de certa forma, energia armazenada em forma química. E uma das aplicações possíveis dessa energia é justamente a geração elétrica de emergência. É nessa visão que surge uma das oportunidades tecnológicas mais interessantes para esse novo cenário mundial. Em vez de utilizar um combustível renovável apenas para movimentar veículos, ele pode funcionar como um ‘armazenamento de energia elétrica’, entrando em operação quando a rede, a geração solar ou um banco de baterias não conseguem sustentar a carga necessária.

Assim surgiu o Ecogerador a Etanol da Liconic, não com foco de substituir a fonte energética principal, mas transformar o etanol em uma fonte alternativa de energia para emergências, quando a energia solar ou baterias não está disponível. 

Nessa formatação, a energia solar gera para as baterias armazenarem, podendo assim utilizar essa energia em momentos de emergência e o biocombustível traz a extensão de autonomia, mantendo a sustentabilidade mesmo em uma situação crítica. É por isso que sistemas críticos continuarão utilizando geração de backup mesmo quando possuem armazenamento.

Durante décadas, haviam poucas alternativas economicamente disponíveis aos combustíveis fósseis convencionais, e a expansão global dos biocombustíveis começa a modificar essa equação.

João ‘Jovis’ Arruda – Diretor 

Liconic Technology

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[1] International Energy Agency. (2025). Electricity 2025: Analysis and forecast to 2027. IEA. https://iea.blob.core.windows.net/assets/7c671ef6-2947-4e87-beea-af0e1288e1d7/Electricity2025.pdf 

[2]  Belding, S., Krah, K., & Armstrong, R. (2022). SEIN: Breaking Barriers Resilient Energy System Analysis (Report No. NREL/TP-7A40-81623). National Renewable Energy Laboratory. https://research-hub.nlr.gov/en/publications/sein-breaking-barriers-resilient-energy-system-analysis/    

[3] Letizio, M. (2026, 22 de setembro). Produção global de biocombustíveis deve aumentar cerca de 70% até 2030. Globo Rural. https://globorural.globo.com/biocombustiveis/noticia/2026/09/producao-global-de-biocombustiveis-deve-aumentar-cerca-de-70percent-ate-2030.ghtml 

[4] Schröder, P., & Bharadwaj, B. (2026, September 21). The problem with biofuels as a response to the Gulf energy supply shock. Chatham House. https://chathamhouse.soutron.net/Portal/Public/en-GB/RecordView/Index/209555